Thursday, February 12, 2009

Capiba e Raphael Rabello: vibrantes confluências


Há quem diga que em nossa época cultiva-se uma estética da repetição e do mero pastiche, marcada pela paródia e ausência de um espírito mais criativo. Entretanto, não esqueçamos que muitas releituras, sejam pictóricas, sonoras ou de outras extensões corporais transmitem bons resultados e indicam a determinados públicos que certas produções muitas vezes esquecidas são profícuas e salutares. Talvez o nosso cotidiano clame o afã pelo novo tão rapidamente, e por isso ao pensarmos tanto em novidades achemos que algo cronologicamente mais antigo seja antípoda ao nosso gosto.

Raphael Rabello esteve atento para nomes que lograram um reconhecimento em gerações muito anteriores à sua. O violonista que brevemente passou por nossa música, (pois morreu em 1995 aos 32 anos) captou de maneira sui generis a notoriedade de outro compositor importante: Capiba. Deste saboroso diálogo produziu-se um disco de suma relevância na história da música do Brasil, embora lançado em 2002, ou seja, sete anos após o falecimento de Raphael Rabello e dez da morte do mestre Capiba. O brilho desse álbum é notável pela constelação reunida em sua confecção. Para citarmos alguns nomes: Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Maria Bethânia, Gal Costa, Milton Nascimento, João Bosco, Ney Matogrosso, Claudionor Germano, Alceu Valença e o próprio Raphael Rabello, contribuíram nas gravações.

Poucos músicos de Pernambuco desfrutaram de um tributo tão imponente, pois o jovem Raphael também quebrou barreiras locais ou etárias. Esse violonista cronologicamente mais novo e oriundo de outra região do país (Sudeste) não hesitou em varar isolamentos preconceitos e vaidade ao dialogar com o universo de frevos, nostalgias e valsas, construído por Capiba. Contudo, é lamentável quando uma homenagem aquilatada por Raphael Rabello, um instrumentista elogiado por Tom Jobim, Paco de Lucía e Pat Metheny encontra-se fora de catálogo e praticamente esteja indisponível para venda no país. Infelizmente, uma das poucas formas restantes para o acesso de tal obra é através dos downloads da web...

Tuesday, January 27, 2009

EU, O TÊNIS E OUTROS DESASTRES



Em tempos de Australian Open, dedico-me ao papel de torcedor apaixonado por uma boa partida de tênis. Deveras, criei um apreço por tal esporte após a primeira conquista do Aberto da França (Roland Garros) por Gustavo Kuerten em 1997. Lembro-me como se fosse hoje, meu tio Ricardo e alguns amigos informando o êxito do nosso manezinho Guga nas quadras parisienses, transmitido na época pela TV Manchete.

Após o título de Guga, já era certa a reunião de meus parentes e vários chegados nossos no acompanhamento das performances desse tenista. Carecíamos de ídolos brasileiros em esportes individuais desde o falecimento de Ayrton Senna, na fatídica curva do circuito de Ímola em 1994. Torcer por Guga era sinônimo de verve e intensidade, entre gritos irritados, (quando cometido algum erro não forçado), ou nas positivas vibrações e até choros, como em sua vitória sobre André Agassi no ATP Master Series em Lisboa. O discurso de Kuerten foi emocionante! Ele enfatizou a sua enorme felicidade, não somente por vencer um torneio que lhe credenciava ao posto de número um no ranking da ATP, mas por falar em português em seu discurso de campeonato. Vale salientar que a maioria dos grandes torneios de tênis propicia falas em inglês, francês ou espanhol.

Estabelecer um gosto pelo tênis a partir de 1997 foi um grande valor cultural na formação de minha estética, haja vista todo aquele confronto psicológico dos atletas somado ao glamour e elegância do universo cosmopolita e colorido de tantos pisos distintos (saibro, carpete, grama e cimento). Para termos uma idéia, apesar do nome, a camisa “pólo” foi inventada pelo tenista francês René Lacoste, tetracampeão de Roland Garros e utilizada nas partidas desde 1929. Lacoste a posteriori criou sua marca a partir da alcunha “crocodilo”, recebida em virtude de sua famosa resistência em diversos jogos.

Entretanto, o tênis ainda enfrentava como ainda enfrenta um status de esporte de rico, cujas forças que impulsionam essa interpretação estão associadas ao seu caráter distintivo e socialmente demarcador em uma cidade como Recife. Contudo, posso contrariar a tese de que tênis é um esporte exclusivamente de quem tem tanto dinheiro assim, não por uma análise de outrem, mas por vivências pessoais. Entre 2005 e 2006 pratiquei esse esporte no Círculo Militar do Recife. E saía de ônibus do meu estágio na Fundação Joaquim Nabuco para o clube com minha raquete na bolsa. Fui aluno de um professor cuja formação socioeconômica não era das mais abastadas (ele foi criado no bairro do Coque) e garanto a vocês que a mensalidade de oito aulas ao mês não era tão exorbitante se comparada a certas práticas esportivas como ginástica localizada, musculação e alguns cursos de dança contemporânea ou balé. Mesmo assim, é inegável que o tênis ainda recebe sua rotulação de elitista não necessariamente pelo seu preço, mas por desinteresses públicos e apatias midiáticas que não incentivam a prática de tal esporte. Aprendamos com o exemplo: Na questão fomento ao tênis, nuestros hermanos argentinos estão años luz adelante.

É certo que não sou o maior exemplo de jogador de tênis, digo inclusive que sou uma espécie desastrosa em quadra, mas também não jogo futebol como sonhara e nem por isso deixo de freqüentar o estádio dos Aflitos para assistir as partidas do Náutico. Por isso gostaria imensamente de compartilhar bons eventos de tênis en ma ville. À guisa de consolação, descobri algumas personalidades interessantes também fãs de tênis. Pierre Bourdieu, que veio de uma infância pobre no sul da França onde jogava rugby e pelota basca, ao decorrer de sua vida acadêmica cultivou uma curiosa afinidade pelo tênis, contrariando algumas generalizações e utilizando-as como reflexões e apontamentos sociológicos, tanto em seus escritos sobre distinção, quanto na aplicação prática de sua teoria de capital cultural. O meu cineasta favorito Woody Allen, também é um admirador de tênis e incluiu em alguns de seus filmes, raquetes e bolinhas amarelas. Em seu famoso Noivo Neurótico; Noiva Nervosa o personagem Alvy Singer conhece o affair Annie Hall (Diane Keaton) numa quadra de tênis ao jogarem duplas, e de uma partida simples surgem novas gradações de intimidade. Outra grande filmagem de Allen é Match Point; um drama envolvente que tem como protagonista um ex-tenista profissional, interpretado por Jonathan Rhys Meyers e permeado também pela bela Scarlett Johansson.
Enfim, o tênis seduz, pois nos dias de hoje obtemos informações que extrapolam o âmbito técnico do esporte. Talvez seja todo o discurso formador da aura estética, tão comentado pelos cientistas sociais, quiçá a inflation paratextuelle que se encontra para além de dois indivíduos trocando bolas em lados opostos de uma quadra cheia de listrinhas. Na ESPN, os comentários inteligentes de alguém como Paulo Cleto são muito convidativos e tal atmosfera é tão sedutora como a alteridade por outro planeta, aliás, por outro fuso-horário que leva pessoas de Recife a se adequarem ao tempo de Melbourne. Por falar nisso, despeço-me pois tenho que assistir uma partida que já estou muito indócil por seu início, entre Novak Djokovic e Andy Roddick.

Saturday, January 03, 2009

Stone Flower


Excelente disco; um dos meus favoritos! É sutil e não identifiquei em momento sequer, qualquer indício de tédio. Do contrário, apesar das canções serem em majoritariamente suaves, todas são complexas, sobretudo harmonicamente, haja vista o grande Tim Maia que dizia: “com um acorde do Tom se faz vinte músicas”. Um disco praticamente instrumental, com arranjos fantásticos, realmente uma primazia de orquestração. Apesar de excelente flautista, o maestro Tom Jobim enfatiza o trombone neste disco, executado por Urbie Green. Outros músicos consagrados no campo artístico elencam o álbum, como o percussionista Airto Moreira, o baixista Ron Carter, e outro grande maestro arranjador, Eumir Deodato, que nesta obra contribui através da performance do violão. Tom consegue um disco jazzístico e plástico, sem abandonar nuances do Brasil, aliando o piano elétrico dos anos 70 com o surdo e o triângulo; (de se esperar de um homem que compôs Insensatez, numa preciosa fusão de música clássica, notadamente nas escalas de Chopin, com a batida de samba). É clara a influência de Luiz Gonzaga, sobretudo nas faixas Stone Flower e God And The Devil In The Land of The Sun, cujas sonoridades inspiradas no baião são evidentes. Não somente, a música Choro recebe fortes passadas associadas a Garoto. Tom ainda interpreta Aquarela do Brasil, de Ary Barroso e a bate o ponto, com sua paixão por valsas em Amparo e no bolero com Andorinha.

Pau e pedra


Bom disco. Gosto muito, pois a partir dele conheci a faceta mais sinfônica de Tom. Inicia com Águas de Março, numa passada mais lenta que a famosa versão homônima com Elis Regina. Embora não aprecie tanto a primeira versão, há de se respeitar sua força histórica, pois, sigamos o exemplo do grande Hermeto Paschoal, que empestou de acordes e virtuose a famigerada Asa Branca, mas atentou para a primeira interpretação de Luiz Gonzaga, dizendo: “se não fosse esta, a outra não existiria”. A segunda faixa, Ana Luiza é uma das músicas mais tenras de Jobim, com arranjos lindos, demasiado pelas cordas. A música é um hibridismo de candura com melancolia, principalmente quando Tom entra na parte “Ana Luiza / Eu fiz essa canção pra você / Que pergunta / Insiste em saber onde anda Luiza (...)”. Este álbum, sobretudo soa a mato, natureza e mar. Tom criou esse ambiente através de suas escalas e entrecruzamentos de uma gama de instrumentos. Uma fusão de dissonância, sem esquecer dos triângulos e de passagens que reflitam selvas, sons que imitem pássaros, ou percussões que dialoguem, (no maior efeito arquetípico de Jung), com impressões de formas indígenas. Mas outra favorita minha é Tempo de Mar. Nela, Tom deixa o lado sinfônico falar de vez, com espaços para oboés e corne inglês, sem esquecer-se do violão e do piano e dando um peso de orquestração nos cellos. Já Crônica da Casa Assassinada contém fortes nuances de Debussy na interpretação de Jobim ao piano, assim como a faixa 7; Rancho das Nuvens, cuja formação clássica de Tom se condensa ao estilo de balada jazz.

Suíte Leopoldina


Este disco, antes de tudo, concentra um grande plantel da música brasileira e mundial ao lado de Guinga: Lenine, Alceu Valença, Lula Galvão, Toots Thielemans, Ivan Lins, Ed Motta, Armando Marçal, Marcos Suzano; Chico Buarque e Nei Lopes, estes dois últimos interpretando uma letra muito criativa em tom cronista, denominada Parsifal, um caso de um militar da reserva, (major Parsifal), cuja vida agora é um retrato de ostracismo. Num tom irônico, a letra faz a ponte entre o período da ditadura e a amargura contemporânea do Parsifal. Boa parte das canções recebeu a letra de um dos melhores entendedores do samba, unindo uma consistência lírica à criatividade casual: Aldir Blanc, muito famoso também pelos trabalhos ao lado de João Bosco. Guinga mantém a descontração do choro apesar de passagens tecnicamente, como na faixa Di Menor. Ainda estabelece contato com a estética do clássico, ao distribuir fraseados do choro na estrutura da música erudita, leia-se na forte presença do piano e da regência com as cordas. O traço mais boêmio da gaita de Toots; artista belga, famoso pelo clássico do Jazz, Bluesette e pela parceria com Elis Regina, no álbum Aquarela do Brasil (Universal, 1999) é muito bom. Conferimos também momentos da interpretação solo do Guinga violonista, como nas belas músicas, Sargento Escobar e Dissimulado. Demais traços são bastante galvanizadores, como o desempenho de Alceu Valença ao cantar Chá de Panela, um baião inteligente, repleto de aliterações e dissonâncias, com uma letra que homenageia Hermeto Paschoal. Tal faixa, que parece simples para quem não toca um instrumento harmônico, traz uma pegada muito técnica, assim como outro baião belíssimo, intitulado Cortando um Dobrado. Lenine também colabora numa canção criativa e interidiomática: Mingus Samba; alusão ao contrabaixista norte-americano de jazz, Charles Mingus, rimando, por exemplo, mingau com knockdown: mérito do grande Aldir Blanc. Já na música Par Constante, é possível a constatação de uma leitura mais jazzística de Guinga, inclusive nos brindando com a performance de Ed Motta pelo vocalise e pela marcante sonoridade da guitarra acústica de Lula Galvão. Guinga é um dos melhores compositores da música popular brasileira, sobretudo versátil, uma vez que sua obra transita entre o choro, frevo, baião e outros ritmos de expressão. Acredito em demasia que sua obra se tornará música erudita daqui a algumas gerações.

Unha & Carne

Ex-integrante do Quarteto Maogani, Marcus Tardelli pode receber o adjetivo de melhor violonista do Brasil sem titubear, pois não apenas sua qualidade enquanto intérprete associa grandes arpejos, mas se utiliza da velocidade na execução musical. O disco Unha & Carne é uma releitura de várias músicas de Guinga e não somente, a faixa que dá nome a este disco é uma homenagem a amizade de Marcus e Guinga, este inclusive deu de presente um de seus violões favoritos, do luthier Lineu Bravo, o qual Tardelli gravou o disco, junto com um Manuel Contreras de 1999. Segundo Guinga, Marcus Tardelli “Nasceu com todos os requisitos dos grandes intérpretes: impressionante velocidade, conhecimento profundo do instrumento, ouvido perfeito e uma intuição ímpar”. O grande trunfo de Marcus Tardelli, na minha opinião, foi gravar um disco sozinho, sem cair na monotonia. Mesmo em se tratando da obra de Guinga, isso não é fácil, pois tudo depende muito da intuição e do sotaque do intérprete. A pegada de Marcus possui muita personalidade, principalmente pela sua dimensão harmônica. Não somente, ele impõe velocidade na execução sem perder o tempo, nem trastejar. Desde o Quarteto Maogani, Tardelli demonstrou desenvolturas surpreendentes, principalmente por tocar o violão requinto, (um instrumento afinado além do convencional diapasão) e pela inovação, ao se valer do polegar para fazer as harmonias nas cordas primárias no braço do violão, o que sugere novos caminhos cultivados por Tardelli no instrumento. Podemos conferir a agilidade de Marcus Tardelli em faixas como Baião de Lacan; Cheio de Dedos; Mingus Samba e pelas suítes cuidadosamente estruturadas a partir das músicas de Guinga e divididas em três partes: Baiões, Expressões de Choro e Frevos, sendo a primeira deveras fantástica!

Incrivelmente Raphael Rabello


Assim como Marcus Tardelli, Raphael Rabello ocupa o panteão dos violonistas brasileiros, sendo um dos maiores nomes do instrumento. Também com uma velocidade marcante, ele conseguiu uma fusão e estabeleceu uma nova estética violonística, agregando numa mesma canção influências do violão brasileiro, (profundamente marcado pelo choro e por sucessivos arpejos), com o violão flamenco, de rasgueados e constantes usos da madeira como percussão, o que aplica mais adornos na musicalidade. Essa mescla é perceptível inclusive nos improvisos de Raphael, esse gênio que embora morto aos 32 anos em 1995, tanto contribuiu para o violão no mundo inteiro, haja vista suas parcerias com músicos de várias nacionalidades, dentre eles o grande Paco de Lucía, que gravou com Raphael a primeira música do disco Todos os Tons, dando uma pegada de rumba flamenca ao Samba do Avião, de Tom Jobim. Não somente, nesse disco Raphael disseca algumas músicas de Tom, percorrendo pela valsa, bossa nova, e de forma incrível, entrecruzando, várias nuances de samba, baião e flamenco em Garota de Ipanema. Como músico, Raphael Rabello também promoveu o diálogo etário, com nomes de outras gerações, como Nelson Gonçalves e Elizeth Cardoso. Ele também reconheceu e respeitou outros nomes imprescindíveis para a formação de qualquer aspirante a músico ou crítico de música do Brasil, quando gravou em 1982 junto com Radamés Gnatalli, o disco Tributo a Garoto, uma homenagem ao compositor Aníbal Sardinha (Garoto), com uma roupagem bastante erudita, pois a obra foi executada apenas ao piano e ao violão. Em 2002 foi lançado postumamente o álbum Mestre Capiba, onde Raphael saudava Lourenço Barbosa (Capiba) juntamente com vários cantores de extrema relevância, como Chico Buarque, Claudionor Germano, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gal Costa, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, dentre outros. O disco Todos os Tons, também se torna precioso pelas contribuições de vários músicos referenciais: Jacques Morelembaum (violoncelo); Paulo Braga (bateria); Tom Jobim (piano); Nico Assumpção (baixo); Leo Gandelman (sax soprano); Paulo Moura (clarinete).

Canto com Adriana


Este disco possui muita leveza e dialoga com o pop sem implicar necessariamente em lugar comum, devido a vários fatores. Primeiro; pela qualidade das letras de Adriana Calcanhotto. Seus escritos contêm muita poesia, principalmente pela compositora flertar com muitos livros e até citá-los em canções consagradas a exemplo de Vambora, quando menciona Dentro da Noite Veloz, de Ferreira Gullar e A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira. Em Cantada, a poesia não só é possível, como é musicada. A faixa 14, por exemplo, é uma poema de Carlos Drummond de Andrade, do livro Discurso de Primavera. Já outras faixas como Justo Agora e Sobre a Tarde transmitem uma atmosfera outonal pela sobriedade de certos acordes menores como o Cm7/9; Gm6 e pelos elementos líricos que Adriana inclui em sua estética, presentes na dualidade entre o silêncio e o ouvir. A melancolia é bastante saliente no disco, através da evocação de artigos de uso cotidiano e de ambientes interiores. Desde cama, espelhos, até bicicleta e chocolate. Mas a poesia de Adriana quase sempre incita dependência do amor, desejo, saudade, solidão e espera; esta última uma característica muito idiossincrática da cantora, perceptível noutras canções antecessoras, como Naquela Estação e Esquadros. Os músicos também preenchem muito bem os espaços das faixas de Cantada, sem engolirem a voz sutil e paradoxalmente, marcante de Adriana. Alguns nomes importantes são: Junior Tostoi; Ramiro Musotto; Daniel Jobim, e os grupos, Moreno + 2; Los Hermanos; e Bossacucanova.

Boa coletânea de um dos principais estetas e músicos de jazz. Este disco oferece um repertório muito fértil, que, a despeito de seu título, não revela apenas a faceta cool de Miles Davis, mas interage com outros momentos importantes de sua carreira. Com seu trompete, Miles relê alguns sucessos da música pop em formato Fusion, como as faixas Time After Time, famosa na voz de Cindy Lauper e Nature Boy, anteriormente propagada por Michael Jackson. Outras músicas famosas na história do Jazz, como Summertime, do musical Porgy And Bess, dos irmãos Ira e George Gershwin; Stella By Starlight; Round Midnight e E.S.P.. Várias faixas autorais também são apresentadas neste cd, como So What (Jazz Modal), Générique e It’s About The Time; remixada com a participação do guitarrista Carlos Santana. Nas versões de Cool & Collected, grandes instrumentistas escudam Miles: John Coltrane (sax tenor); Bill Evans (piano); Paul Chambers (baixo); Jimmy Cobb (bateria); Julian ‘Cannonball’ Adderley (sax alto); Red Garland (piano); Herbie Hancock (piano); Ron Carter (baixo); John Scofield (guitarra); Wayne Shorter (sax tenor); Chick Corea (piano); John McLaughlin (guitarra) e Dave Holland (baixo).

GETZ / GILBERTO


Clássico da música gravado em 1964; considero um dos melhores discos de todos os tempos. Nele conferimos vários nomes do jazz e da bossa nova reunidos, como o violonista baiano João Gilberto, o saxofonista norte-americano Stan Getz, acompanhados pelos arranjos do maestro Antonio Carlos Jobim, e pela primeira esposa de João, Astrud Gilberto, nascida na Bahia e filha de pai alemão com mãe brasileira. Este disco é importantíssimo por muitos fatores. Primeiro; é o álbum que marca a entrada, quiçá maior impacto da bossa nova nos Estados Unidos, alcançando inclusive, o Grammy de 1965 de melhor disco. Segundo; oferece um repertório fantástico, com músicas antológicas. Alguns exemplos são: Chega de Saudade; possivelmente a primeira canção de impulsão do ritmo bossa nova; Corcovado; ou (Quiet Nights), principal propagadora da estética do cantinho e do violão; também uma releitura de Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso; somada ao primoroso hit Desafinado; e a famosa Garota de Ipanema, que em 1964 derrotou I Want Hold Your Hand, de Lennon e McCartney, na categoria de melhor canção do ano no Grammy. Terceiro; a química é bem distribuída, de maneira que o disco soa carismático e atraente. A batida do violão de João Gilberto revolucionou o instrumento mundialmente e no disco soma-se ao piano suave de Tom Jobim e aos improvisos de Getz. Quarta; é um dos primeiros momentos que a música brasileira se impõe suficientemente, a ponto das letras em português ganharem versões para o inglês e não o inverso. Como João Gilberto cantava a letra em português e não dominava tão bem o inglês, sua mulher Astrud o fazia com propriedade. O resultado foi o lead vocal compartilhado por ambos, revelando também a voz baixinha e meiga de Astrud, que posteriormente cantaria versões da bossa nova em outros idiomas, até mesmo no japonês, como na música Mas que Nada.

Thursday, July 31, 2008

Enquanto Dormes (Saudação à Distância no Gerúndio)


Enquanto dormes, minha aguda pungência gerencia este vazio,
Distante do teu caminho e de tuas pernas nuas,
Na solidão que já levita em minha estafa,
Sem perder o cheiro de tua falta.

Eu sou então tuas palavras ocultas nesta noite,
Que se enredam em teus sonhos, deixando tua existência caber em minhas suposições,
Encerrando a desnecessária monotonia,
Elevando minha opção de te querer além da lembrança.

E sem te olhar além de projeções da noite,
Divagando ante o sentimento entreguista de minha alma,
Passando à revelia do meu tino enquanto dormes.

Havendo vida, embora haja distância...

Mar
















Mar;
Há quanto tempo não te via;
Volto a sentir teu infinito
Ressacado no tom esverdeado,
Espumante,
Sustentando todo horizonte colorido
De tons incertos
Imprecisos como esse amor.

Mar;
Às vezes temo entrar em suas funduras
Do medo inesperado
Na areia fria e assimétrica,
Já na maresia corrosiva desse opaco entardecer,
Que retoma nos meus lábios salgados
Mais um estado imprevisível
Que nem mais esquece o que há em tua ausência,
Senão esse mar...

Amargo

Ruas de Nazaré da Mata

Faces sofridas perambulam terras ladrilhadas,
Mãos calejadas tracejam, sinuosas e tímidas
As paredes de suas casas.
Olhares acuados, ou em corrente fascínio
Permeiam e incitam minha alma.

Ruas intactas, puras, plácidas,
Pairam sobre solos canavieiros
E no subsolo jaz a veia do labor alheio

Do céu a pitada de estrelas aleatórias
Preenche os cumes dos lares acariciando sonhos

Das casas vagueiam réstias,
Feixes de luzes distraídas
Nas portas descerradas

Nas casas retumbantes
Nos toques abstratos,
Nos desejos indeléveis
Na terra de notáveis anônimos.

E você?

Tiago permanecia junto às escadas rolantes do shopping, onde aguardava a sessão de cinema da segunda-feira. Diante das vitrines quase apagadas em virtude do horário, viu uma garota, cuja estética lhe atraíra. Não bastasse, outro sentimento lhe veio de roldão: o de reconhecimento.
Era Luiza, a mesma musa que iludia suas noites de sonhos inacessíveis e desesperados, a mesma que não saía de sua mente sob tantos anos, embora outros corpos, órgãos e perfumes das mais variadas mulheres já conhecessem alguma essência de Tiago.
Mas Luiza era o Ideal que enriquecera sua puberdade na escola que sobrepujava uma lembrança de desgaste e falência no pleno instinto de senti-la. Portanto, seria uma chance de revigorar seus sentimentos? De qualquer maneira, Tiago usaria o pretexto da “educação” para abordar Luiza nas vitrines daquela noite.
Foi o mais cabível ato que lhe apontava à cabeça. Reencontrar aquela aluna modelo, cujas notas eram as mais altas da classe, que conciliava sua beleza física com um boletim tão soberbo! Tiago não teve dúvida: Calculou seus passos até Luiza:
- Com licença... Luiza?
- Sim...
- Estudei contigo na 5ª e na 6ª série.
- Ah, sim...
- Tiago, lembra?
- Caramba! Você tá bem diferente, hein?
- É, acho que mudei um pouquinho...
- Pouquinho? Pô, cê tá com uma cara nova. Sem óculos, de barba...
- É, antes tinha aquela penugem e aquele fundo de garrafa... Mas, e você, como vai?
- Eu, tô bem, e você, fazendo o que da vida?
- Tô por aí, trabalhando...
- Ah, legal.
- Eu me formei, depois fiz mestrado em Sociologia. E você?
- Eu tentei Direito, mas só passei um ano e desisti. Agora estudo Jornalismo.
- Na Federal?
- Nada, numa particular mesmo.
- Ah, sei (desconcertado). Então, tá gostando do curso?
- Sim. Por sinal acho que ele tem algumas semelhanças com o seu. Sei lá, a área temática...
- É, há uma crítica fundamentada nas relações sócio-humanas em ambos.
- Isso, mas, me conta mais sobre o trabalho.
- Sou professor.
- De faculdade?
- Universidade.
- Puxa, você é rápido. Já tem títulos e mais títulos...
- É (olha para o relógio). Preciso ir, tenho um filme, agora.
- Ah, legal. É aquele de terror?
- Não, é de Almodóvar.
- Hum...
- Olha, desculpa, mas realmente preciso ir.
- Tá, tudo bem. Bom te ver, viu?
- Também achei.
- Ah, sexta-feira marquei com uns amigos lá, num bar novo, perto de casa. A partir das 22 horas
- Ainda é lá na Jaqueira? (Tiago sabia o endereço dela de cór, mais do que o dia do seu próprio aniversário).
- É sim.
- Beleza, qualquer coisa apareço lá.
- Apareça mesmo, viu?
- Ta bom. Tchau.
- Tchau (se beijam no rosto e se partem em direções opostas).



Post-Scriptum

Tiago já não sabia o que sentia. Era algo confuso, como se aquela expectativa inicial recorresse a um desencanto, desamor, ou despaixão, e Luiza se convertesse em beleza táctil quando vista de perto, alguém de carne e osso que estudava Jornalismo. Para ele talvez não valesse a pena sonhar mais do que deveria, talvez o filme fosse mais importante...
Luiza se despedia, mas algo lhe sobressaltava: aquele momento repentino, que abortava qualquer previsibilidade dum passeio de shopping. Foi uma situação interessante, de um diálogo que lhe fomentou uma profunda curiosidade naquele rapaz tão mudado e atraente, que agora Luiza desejava na sexta-feira à noite, perto de sua casa. Mas, será que alguém tão interessante reapareceria?

Contradições Vivas

Numa parte de um meio dia evidente, de uma segunda-feira trivial, Fernando pega seu ônibus saindo do estágio na Escola Silva Jardim, onde lecionava Português. Subindo as escadas cromadas de um aço massacrado pelo cotidiano pisante dos passageiros, se enfileira perante uma senhora demasiado adiposa que encontra dificuldades de passar na catraca do coletivo. Dentro de um gesto praticamente simples, Fernando começa a pensar nos impasses de sua pré-profissão e na gênese filosófica que ganhara um pouco, graças à graduação quase liquidada do curso de Letras e na velha necessidade de aprender no tranco os gostos de eternos improvisos. Mesmo assim, o sentimento de rotina que o massacrava, consegue cessar e ele espairece de pé, já no sabor daquela manhã abolida.
Próximo ao Colégio Damas, sobe um amigo seu que não vira há uns sete anos: Jaime. Em virtude de tal prostração surgia um misto de euforia e desfalecimento. Por um lado Fernando lembrava as parcelas de sua infância saudosista, na qual o seu colega que no ônibus estava fizera parte. Ressentido enquanto Jaime passa pela catraca, acaba virando o rosto. Fernando sabia da contra-parte na infância, em lembrar das chacotas que os outros colegas, liderados por Jaime, lhe feriam. Rotulado de donzelo, mamão ou algo de tom depreciativo semelhante, aquela lembrança continha também sua dor, embora bom fosse se reportar ao pátio da Escola e às conversas cultivadas com o ciclo restrito de amigos mais próximos e opressivamente tímidos.
No sintoma de ostentação, em parte gritante pela busca de sua auto-afirmação, quiçá pela necessidade de desmitificar a antiga perspectiva, que involuntariamente imprimia em sua pessoa, Fernando sentiu remorso em não falar com Jaime. Mesmo assim, travava uma luta presa nuns minutos de não dirigir a palavra a ele. A mudança física o ajudava a ocultar-se, visto que o antigo gordinho, agora era esbelto, usava barba e uma armação de óculos diferente, com alguns graus a mais de miopia.
Fernando desce na parada na Universidade Católica, mas estudava no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Coincidentemente Jaime também sai do ônibus no mesmo ponto, mas não chegam a colidir, embora sempre houvesse uma iminência de tal. Fernando vai à barraquinha de seu Pedro, para almoçar alguma coxinha por ali mesmo, naquela velha promoção que lhe rendia um copinho de refrigerante que descia na massa de trigo, encorpado ao úmido calor de asfalto da redondeza.
Ambos os jovens não mais se viram naquele dia e Fernando esperava mais uma inovação em seu destino, quando não se imprimia de maneira tenra o sorriso de sua ex-namorada; pois a recordação dava-lhe sim umas indisposições. Ele sabia o que vivera, notara sim que no
relacionamento certas renúncias nem sempre são compensatórias. E, embora existisse o amor, agora a amargura era mais vigente e perpétua, na liquidação de seus instantes.
Sim, para ele era melhor evitar qualquer reflexão indigesta. Quem sabe não ir à casa de ninguém mais comum, assim tolhendo as obviedades de quase sempre? Afinal de contas, refletir sua condição de poucos colegas e mínimos amigos, das impressões de fugir aos padrões de beleza, por não usar as camisas das últimas grifes, ou por não falar de qualquer consumismo amoroso, traziam seu isolamento, mais uma vez oculto e adormecido perante todas futilidades que por sua frente se ostentavam. Antes preferiu fingir em si mesmo, a lembrar que no fim de tudo, era sempre mais um a sós, com suas diferenças e discordâncias do que ali se estabeleciam incólumes....

Wednesday, March 12, 2008

UMA REPÚBLICA EM 1817

As idéias liberais propagadas no final do século XVIII e início do XIX ganharam adesão de vários grupos políticos no cenário mundial. Em Pernambuco, intelectuais civis, militares e da Igreja compartilharam de visões concernentes a modelos republicanos, já descontentes com o regime monárquico absolutista vigente no Brasil. Governantes a serviço de D. João VI, executavam posturas favoráveis à nobreza, preterindo alguns membros das classes, média e alta na participação no poder político de algumas províncias.
O chefe do Governo de Pernambuco, capitão-general e Desembargador, Caetano Pinto de Miranda Montenegro (Marquês de Praia Grande), deliberou a prisão de alguns suspeitos, dentre eles Manoel de Sousa Teixeira e Domingos José Martins. No dia 6 de março de 1817, o brigadeiro Manoel Joaquim Barbosa de Castro, comandante da Artilharia em Pernambuco, deslocou-se até o seu quartel, ordenando a detenção de dois capitães, Domingos Theotonio Jorge e José de Barros Lima, o Leão Coroado. Esse oficial, por sua vez, declarou insolência à monarquia, varando sua espada no corpo do brigadeiro Manoel Barbosa e liderando um motim no quartel e pondo-se a favor da causa republicana. Ciente disso, o Marquês de Praia Grande enviou seu ajudante de ordens, o tenente-coronel Alexandre Thomaz, para estancar a revolta. No entanto, o capitão Pedro da Silva Pedroso, a favor da república, liderou os disparos contra o tenente-coronel, assassinando-o.
O levante intensificou, impossibilitando o Marquês de Praia Grande de anular a revolta. Ele, que nessa altura permanecera no Forte do Brum, anunciou a capitulação, retirando-se para o Rio de Janeiro entre os dias 7 e 8 de março de 1817. Após ocuparem o Forte do Brum, os republicanos foram até o Campo do Erário (atual Praça da República), propondo um governo provisório que aglutinasse cinco setores da política pernambucana. Formaram então, Manoel Correia de Araújo (representante da agricultura); Domingos José Martins (comércio); padre João Ribeiro, (clero); José Luís de Mendonça, (magistrados); Domingos Teotônio Jorge, (Forças Armadas). Para auxiliar esse governo, formou-se também um conselho com Gervásio Pires Ferreira, Antonio de Moraes e Silva, Antonio Carlos de Andrade Machado e Silva, o clérigo Bernardo Luiz Ferreira Portugal e Manuel José Pereira Caldas e para secretário de governo, o Padre Miguel Joaquim d’Almeida Castro, o Miguelinho. Os membros decretaram medidas políticas, como o livre comércio, inclusive com as nações que se encontrassem em guerra com a Coroa de Portugal, a permanência de portugueses que não se opusessem ao modelo republicano, a continuação do sistema escravista, a solicitação de homens dispostos a formarem companhias de cavalaria, concedendo inicialmente o posto de capitão aos interessados. Proibiram a imigração sem licenças e autorizaram a impressões locais, utilizando, portanto, a “Officina Typographica da 2ª Restauraçam de Pernambuco. Nela imprimiu-se o Preciso dos successos que tiveram logar em Pernambuco, desde a faustissima e gloriosissima revolução operada felizmente na praça do Recife, aos seis do corrente mez de março, em que o generoso esforço dos nossos bravos patriotas exterminou daquella parte do Brazil o monstro infernal da tyrania real” (SANTOS, 2006, p. 42).
Em seguida, o movimento ganhou o apoio da Ilha de Itamaracá, decretou a prisão do Juiz de foro de Goiana, associado à Monarquia e mandou emissários às províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. As duas primeiras foram ocupadas pelos republicanos. A Paraíba, repleta de ex-alunos do Seminário de Olinda não encontrou dificuldades em ser ocupada; inserindo um governo provisório nos moldes de Pernambuco por Manoel Clemente Cavalcante, André Dias de Figueiredo e João Batista do Rego em 14 de março de 1817. No Rio Grande do Norte, auxiliados pelo coronel André de Albuquerque Maranhão, o tenente-coronel José Peregrino e o capitão-mor João de Albuquerque Maranhão, criaram em 19 de março, uma junta dirigida pelo vigário Feliciano José Dornellas. Já no Ceará, José Martiniano de Alencar, foi preso no Crato e enviado para Fortaleza. Na Bahia, José Inácio de Abreu e Lima, o padre Roma, foi surpreendido e capturado pelo capitão-general Conde dos Arcos, na praia de Itapoã. A sua ida, que a princípio era sigilosa e importante para articulações políticas da causa republicana foi descoberta antes mesmo de sua chegada. Na íntegra, o Conde formou no tribunal, um julgamento contra o padre Roma, que ao entardecer de 29 de março de 1817, foi executado por arcabuzes, inclusive obrigatoriamente assistido pelo seu filho, posteriormente conhecido como general Abreu e Lima.
João de Barros Falcão, foi designado para a Ilha de Fernando de Noronha a fim de trazer ao Recife, alguns militares e recrutar presos condenados por penas mais leves. Antonio Gonçalves da Cruz Cabugá foi aos Estados Unidos no intuito de comprar armamentos e recrutar soldados franceses dispostos a servirem ao governo de Pernambuco. Já Henry Koster partiu para a Inglaterra, tentando algumas negociações diplomáticas nesse país.
Ciente da Revolução, o Conde dos Arcos enviou tropas, sob o comando do marechal Joaquim de Mello Leite e algumas embarcações militares para bloquear o porto do Recife. A Corte também mandou um efetivo sob as ordens do almirante Rodrigo José Ferreira Lobo. Devida a amplitude dos militares a serviço da Monarquia, as províncias do Rio Grande do Norte e Paraíba, foram rendidas sem maiores conflitos. Em Pernambuco, algumas derrotas foram infligidas aos republicanos. Domingos José Martins foi ferido e preso em Porto de Galinhas e Francisco de Paula Cavalcanti derrotado em Ipojuca pelo marechal Mello Cogominho. Ao desencadear do cerco, os pernambucanos pediram a rendição pacífica à Corte, que por sua vez negou o pedido. A partir dessas vicissitudes, grande parte dos republicanos se ausentou do Recife, partindo para o interior e permitindo a ocupação da cidade pelo almirante Rodrigues Lobo.
Após esses fatos, iniciou-se a perseguição aos insurretos. Francisco de Paula Cavalcanti, o vigário Pedro Gonçalves Jacome Bezerra, José Luiz de Mendonça, o padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro foram enviados à Bahia, a bordo do navio Carrasco. Na segunda leva, cerca de 30 condenados, dentre eles Francisco Muniz Tavares, Pedro da Silva Pedroso, José Mariano, Antonio Carlos de Andrada e Silva e Frei Caneca seguiram no porão da corveta Mercúrio. Os quatro últimos tiveram os pescoços acorrentados e os pés agrilhoados, o que causava peso ao corpo e os obrigava a viajarem deitados. No dia 10 de junho instalou-se um tribunal que sentenciou Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça e o Padre Miguelinho à execução por arcabuzes após dois dias, no Campo da Pólvora. Em Pernambuco, o padre João Ribeiro, passado três dias do seu suicídio, teve o corpo exumado, degolado e espetado numa estaca, a fim de amedrontar futuras rebeliões.
No dia 29 junho de 1817, tomou posse da Província de Pernambuco o capitão-general Luiz do Rego Barreto. Autorizado pela Corte, promoveu as execuções de alguns líderes da revolução. Antonio Henriques Rabello foi enforcado. Após tal, sua cabeça foi retirada e espetada em um poste junto à forca. Suas mãos foram decepadas e afixadas na Ponte do Recife e o restante do corpo arrastado por cavalos até o Cemitério da Matriz, no bairro de Santo Antônio. Cerca de uma semana após o feito, procedimento semelhante foi aplicado a Pedro de Souza Tenório, José de Barros Lima, o Leão Coroado e Domingos Theotonio Jorge. Da Paraíba, vieram para se submeter à execução, o coronel Amaro Gomes Coutinho, o tenente-coronel Francisco José da Silveira, Ignácio Leopoldo d’Albuquerque Maranhão e o padre Antonio Pereira d’Albuquerque José Peregrino de Carvalho. No Rio Grande do Norte houve o assassínio de André de Albuquerque Maranhão. No dia 6 de fevereiro de 1821, D. João VI decretou anistia aos demais acusados.
Todavia, algumas medidas do capitão-general Luiz do Rego Barreto, que favoreciam através de eleições, deputados portugueses, causaram animosidades entre lusitanos e brasileiros. Em Goiana, o descontentamento foi liderado por Francisco de Paula Gomes dos Santos. Em Olinda e Afogados, houve embates dos revoltosos e o exército de Luiz Barreto, que no dia 26 de outubro de 1822 assinou uma espécie de armistício, conhecido como A Convenção de Beberibe. Nela, o capitão-general podia se retirar, pacificamente, para Portugal, assim como os seus adeptos. Após a rendição, Gervásio Pires Ferreira, tornou-se o governador da província de Pernambuco, no dia 28 de outubro.
Na transição 1822-23, uma nova revolta emerge, expulsando Gervásio Pires do cargo público e constituindo um governo provisório constituído dos seguintes membros: Affonso d’Albuquerque Maranhão, José Mariano d’Albuquerque Cavalcanti, Francisco de Paula Gomes dos Santos, Francisco de Paula Cavalcanti d’Albuquerque, Francisco Paes Barreto e Manoel Ignácio Bezerra de Mello. Contudo, atritos entre membros dessa junta, com o chefe das armas Pedro da Silva Pedroso, culminou numa fragmentação política e na destituição de vários integrantes. Enfraquecido, o conselho cedeu e outro governo temporário presidido por Manuel de Carvalho Paes d’Andrade e secretariado pelo Doutor José da Natividade Saldanha foi constituído.



ALGUNS PARTICIPANTES

André de Albuquerque Maranhão: Nascido no Rio Grande do Norte era senhor da casa de Cunhaú e coronel das milícias a cavalo. Foi um dos líderes do movimento separatista, tornando-se presidente do Governo Provisório no Rio Grande do Norte. Mas opositores vararam seu corpo com espadas. Perto de sua morte, seu amigo o padre Dornellas prestou lhe as últimas orações. Foi enterrado com grilhões em seu cadáver.

Antonio Henriques Rabello: Nascido no Ceará mudou-se na infância para o Recife, ingressando na carreira militar. No dia 6 de março de 1817, ocupava o posto de segundo tenente do Regimento de Artilharia. Alastrado o movimento republicano, Antonio Rabello uniu-se a outros adeptos das circunstâncias, ocupou o Forte do Brum e o Campo do Erário. Depois assumiu o comando da então Fortaleza das Cinco Pontas. Mas, com o declínio da República, foi Antonio preso, julgado e no dia 5 de julho de 1817 no Campo da Honra (atual Praça da República) executado. Depois do ocorrido, cortaram-lhe a cabeça, espetando-a próxima da forca. Ainda deceparam suas mãos, fincando-as na Ponte do Recife. O restante do corpo foi arrastado por um cavalo até o Cemitério da Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Santo Antonio.

Antonio Gonçalves da Cruz Cabugá: Foi um pernambucano abastado, adepto das idéias liberais franco-americanas, sofrendo perseguições por alguns políticos realistas. Na iminência de maiores desdobramentos, leia-se prisão, Cruz Cabugá vendeu seus bens e estabeleceu residência em Nova Iorque. Após o dia 6 de março de 1817, recebeu a incumbência de negociar a legitimação de um estado pernambucano independente, diante da embaixada dos Estados Unidos em Washington. No entanto, o malogro da Revolução Pernambucana impediu a articulação diplomática, uma vez que o movimento foi sufocado antes das negociações de Cruz Cabugá. Em 1826, retornou ao Brasil e foi nomeado cônsul-geral do Império nos Estados Unidos.

Bernardo Luiz Ferreira Portugal: Nasceu no Recife em 1755. Logo jovem foi para Portugal, onde cursou Direito na Universidade de Coimbra e obteve os graus de Doutor em Cânones e Direito Civil. Na mesma época se ordenou na Igreja Católica e em meados de 1780, se encontrava no Recife, trabalhando como advogado. Suas idéias políticas causaram descontentamento em alguns membros do Clero, culminando em seu degredo para a capitania do Pará em 1795. Mesmo assim, conseguiu Bernardo se articular, regressando a Pernambuco em fins do século XVIII. Em 1817, teve ligações profundas com o movimento separatista, inclusive discursando na solenidade de adoção da bandeira republicana e tornando-se Deão de Olinda. Entretanto, com o isolamento das tropas locais e a chegada do efetivo real, foi preso no Varadouro e mandado a bordo do navio Carrasco para a Bahia. Sob julgamento, foi livrado da pena de morte, mas passou 4 anos na cadeia baiana, até a concessão da anistia em 1821. Passou mais tempo na Bahia até regressar ao Recife, onde exerceu os cargos de vigário geral do Bispado, juiz dos casamentos, comissário do Santo Ofício, procurador fiscal da Tesouraria da Fazenda, conselheiro do Governo e Vice-Presidente da Província no ano de 1832.

Domingos José Martins: Nascido no Espírito Santo partiu na juventude para a Bahia. Depois foi para Lisboa, presenciando o regime despótico em voga. Através de negócios bem sucedidos, estabeleceu pontos comerciais no Maranhão, Ceará, Bahia e Pernambuco, este último lugar, constituindo sua residência no ano de 1815. Seu engenho no Cabo foi determinante para reuniões de adeptos da República. Ficou Domingos rapidamente conhecido como separatista, inclusive pelos monarquistas. O governador Caetano Pinto Montenegro ordenou sua prisão. Mas, Domingos não passou muito tempo nela, pois no dia 6 de 1817 foi libertado em virtude da eclosão do movimento separatista. Logo compõe o governo provisório, ocupando o cargo de representante do Comércio. Diante das questões militares, partiu para a Campanha de Pindoba, no dia 30 de abril de 1817, onde surgiram divergências geopolíticas entre ele e o General Suassuna. Esse, segundo Dias Martins (1853, p. 264), era a favor da capitulação, tendo em vista a desvantagem numérica das tropas pernambucanas perante o exército realista. Já Martins concordava com o prolongamento das batalhas. Entretanto, foi abandonado por muitos que discordavam de suas estratégias. Nessa condição, refugiou-se em lugares como Porto de Galinhas, onde foi preso pelos realistas e mandado para a Bahia a bordo do navio Carrasco. Após o julgamento, foi condenado ao arcabuzamento em 12 de junho de 1817.

Domingos Theotonio Jorge Martins Pessôa: Nascido no Recife seguiu carreira militar. Ocupava a patente de capitão, sendo um dos comandantes do Regimento de Artilharia do Recife, quando lhe foi decretada prisão no dia 6 de março de 1817. Sua atuação em lojas maçônicas também foi fundamental para a articulação do movimento republicano em Pernambuco. Domingos Theotonio viajou até Bahia e Rio de Janeiro a fim de construir relações políticas entre os maçons daqueles lugares. Na consolidação do Governo Provisório, foi promovido a general das tropas pernambucanas. Mas, as o contra-ataque dos militares reais, impossibilitou vários planos de Domingos. Mesmo assim, ainda ocupou o cargo de governador civil e militar do Partido da Independência em Pernambuco. Perdida a revolução, foi preso, julgado e enforcado, no dia 10 de julho de 1817. Depois foi degolado e teve a cabeça exposta num poste do Pátio da Soledade; suas mãos foram decepadas e exibidas no Quartel de Artilharia. O restante do corpo foi arrastado por cavalo até o cemitério no bairro se Santo Antônio.

Francisco de Paula Cavalcanti (General Suassuna): Nascido no Recife teve uma educação financiada por seus pais. Posteriormente, entrou na carreira militar e aproximou-se das leituras relacionadas às idéias da Democracia e do Liberalismo. Em 1801, foi preso sob a acusação de uma suposta revolução, na qual Pernambuco seria protegido por Napoleão Bonaparte. A administração da capitania tolheu Francisco de Paula de receber qualquer visita em seu cárcere, à exceção de médicos, na tarefa de assistirem sua saúde. Foi libertado em 1802, recebendo posteriormente, o titulo de fidalgo e o de coronel do Engenho Suassuna, local esse, utilizado em prol de um movimento republicano. Eclodida a Revolução Pernambucana, foi promovido a general de divisão do exército patriótico. As tropas reais, mais numerosas, entraram em Pernambuco e travaram combates contra o general Suassuna, que partiu em retirada para o Recife, sendo preso em 1817, levado à Bahia no brigue Carrasco e detido na cadeia até o ano de 1821, quando também falece retorna a Pernambuco e falece.

Francisco Muniz Tavares: Nasceu no Recife, em 16 de janeiro de 1893. Abraçou a carreira eclesiástica, celebrando sua primeira missa em Pernambuco no ano de 1816. Foi nomeado capelão do Hospital do Paraíso, onde havia uma suposta academia, que escamoteava a estrutura de um clube de discussão das idéias liberais. Francisco Muniz acabou afirmando sua visão republicana e participou do movimento separatista em Pernambuco. No entanto, após a derrota e perda de territórios, Muniz Tavares, juntamente com outros pernambucanos, foi preso e mandado a bordo no navio Mercúrio para a Bahia. Após julgamento, passou anos na cadeia, até receber anistia em 1821. Em seu regresso a Pernambuco, conseguiu a nomeação de professor régio da cadeira de latim, na vila do Cabo. Sua participação em futuros atos políticos continuou. Não somente, desempenhou atividades intelectuais e teve valiosa contribuição acadêmica. Em 1840, publicou pela Typographia Imparcial de L. I. R. Roma a História da Revolução de Pernambuco de 1817. Outras edições foram lançadas posteriormente, inclusive uma em 1917, em comemoração ao centenário da Revolução, exemplar esse, contido na Biblioteca Pública de Pernambuco.

Gervásio Pires Ferreira: Nasceu no Recife em 26 de junho de 1765, mas constitui vida em Portugal, até a invasão das tropas de Napoleão Bonaparte, quando retornou a Pernambuco em 1808 e estabeleceu atividades de negócios, abrindo casas de crédito. Até o dia 6 de março não era contado por muitos partícipes do movimento republicano enquanto colaborador da referida causa. Todavia, começada a mudança do cenário político, teve Gervásio Pires adesão fundamental, colaborando em questões ideológicas e materiais, haja vista o uso de seu navio Espada de Ferro, no intuito de levar pernambucanos aos Estados Unidos para trazerem armamentos. No dia 11 de março de 1817 foi eleito presidente do Erário Nacional e posteriormente nomeado conselheiro do governo. Com a retaliação monárquica, foi Gervásio capturado e detido na Bahia durante 4 anos. No retorno a Pernambuco, desempenhou mais funções na esfera política e após a Convenção de Beberibe em 1821 foi nomeado presidente da Província. Mas, algumas fragmentações entre os pernambucanos e a desconfiança perante vários portugueses, influiu em seu apreço político, levando Gervásio à deposição de seu cargo em menos de um ano e partindo para o Rio de Janeiro. Passado o período de levantes, Gervásio voltou a Pernambuco, onde faleceu no dia 9 de março de 1836 e teve o corpo sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no bairro da Boa Vista.

João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro: Nasceu em Tracunhaém, no dia 28 de fevereiro de 1766. Orientado pelo Dr. Arruda Câmara, aproximou-se do estudo das Ciências Naturais, notadamente da Botânica. Veio para o Recife e entrou no Convento de Nossa Senhora do Carmo, passando em seguida, para o Seminário de Olinda, como lente na cadeira de Desenho. Posteriormente, seguiu para Lisboa, onde se matriculou no Collegio dos Nobres. De volta ao Recife, relacionou-se com a Maçonaria e construiu uma biblioteca particular em sua residência, disponibilizando volumes para vários companheiros de movimento. Durante a Revolução, foi nomeado membro do Governo Provisório, no dia 8 de março de 1817. Durante os conflitos com as tropas reais, foi encurralado e descontente com o malogro de algumas investidas, enforcou-se, tendo o sepultamento na capela do Engenho de Paulista. Mesmo assim, passados três dias de seu suicídio, teve o corpo exumado, degolado e espetado numa estaca, como alerta a futuros insurretos.

Joaquim do Amor Divino Caneca: Nasceu no Recife em 1779, no seio de uma família da classe média. Seu último nome era Rabello, que foi substituído por Caneca em homenagem ao ofício do seu pai de tanoeiro. Seguiu a vida eclesiástica, entrando no convento em 1796. Participou do movimento separatista em 1817, pois já freqüentava os clubes de idéias liberais, desempenhando uma importante função na propagação dessas idéias, inclusive fora de Pernambuco. Com a entrada das tropas realistas, foi preso, enviado à Bahia no navio Mercúrio, ficando no cárcere até 1821. Nesse tempo escreveu diversos textos, muitos inclusive de poesia. Após sua libertação, participou de mais ações contra a Monarquia. É conhecido pelas críticas ao Imperador no movimento separatista de 1824, intitulado Confederação do Equador, o qual levou Frei Caneca ao arcabuzamento.

José de Barros Lima: Conhecido também como Leão Coroado nasceu em meados do século XVIII no Recife. Quando jovem, adentrou na carreira militar, mas pediu baixa e foi nomeado diretor da aldeia de índios de Limoeiro entre 1794 e 1796. Voltou ao Exército, lotado no Regimento de Artilharia, após o cursar Matemática em Lisboa. Declarou simbolicamente o início da Revolução Pernambucana, após rejeitar a ordem de sua prisão, varando o corpo de seu acusador, o brigadeiro Manoel Joaquim de Barbosa e Castro, no dia 6 de março de 1817. Foi promovido ao posto de coronel no dia 26 de março do mesmo ano. Diante da perseguição das tropas reais, ausentou-se do Recife, migrando para o Engenho Paulista. Foi detido em 6 de julho de 1817 e enforcado quatro dias depois. Depois da sentença, teve a cabeça cortada e fincada num poste em Olinda. Suas mãos decepadas e expostas no Quartel de Artilharia. O restante do corpo foi arrastado e sepultado.

José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima: Conhecido também como Padre Roma nasceu no Recife em 1768. Descendente de uma linhagem de militares tornou-se padre no Instituto Carmelitano, com o nome de Frei José de Santa Rosa. Na década de 1780, partiu para Universidade de Coimbra, onde alcançou o grau de bacharel em Teologia. Em seguida foi à Itália, residindo alguns anos. Em 1807, consumou a nulidade de sua carreira eclesiástica, voltando a Pernambuco, trabalhou como advogado, alcançando certa expressão em seu meio. A partir de tal, expôs suas posições favoráveis à república, colaborando de frente com o movimento separatista de 1817. Ficou então o Padre Roma encarregado da articulação política do movimento. Ele seguiu até Alagoas, onde apanhou uma balsa para a Bahia. A sua ida, que a princípio era sigilosa, foi descoberta antes mesmo de sua chegada, sendo o padre surpreendido e capturado pelo capitão-general Conde dos Arcos, na praia de Itapoã. Posteriormente, formou-se no tribunal, um julgamento contra o padre Roma. Ao entardecer de 29 de março de 1817, foi executado por arcabuzes, inclusive obrigatoriamente assistido pelo seu filho, até então capitão e posteriormente conhecido como general Abreu e Lima.

José Luiz de Mendonça: Nasceu no Recife em meados do século XVIII. Seguiu carreira militar, logrando a patente de capitão em 1814. Suas idéias receberam apreço de muitos republicanos, haja vista a participação de José Luiz nos clubs fomentadores de teorias liberais, como os do Cabo, de Suassuna e por ser um dos criadores da Academia do Paraíso. Seu papel conciliador também foi importante: declarada a Revolução Pernambucana, foi José Luiz negociar pessoalmente a retirada do capitão-general Caetano Pinto, que estava a serviço da Coroa. Membro do Governo Provisório, foi José Luiz contestado enquanto republicano, por considerar relevante a criação de um documento formal, justificando ao rei D. João VI o porquê do movimento insurreto. Respondendo aos críticos, publicou um texto intitulado Preciso, no qual endossa as posições da república e do modelo liberal, no dia 10 de maio de 1817. Em virtude do recuo das tropas republicanas, rendeu-se e foi mandado à Bahia bordo do navio Carrasco. Em seguida, foi submetido a julgamento e arcabuzado no dia 12 de junho de 1817.


José Mariano de Albuquerque Cavalcanti: Nascido em Sobral no Ceará, participou das academias do Paraíso e Suassuna, envolvendo-se também com a declaração da república em Pernambuco, com a morte do Brigadeiro Manoel Barbosa e a libertação dos presos associados ao movimento separatista. Não obstante, foi eleito governador de Olinda e general em Alagoas. Derrubado o movimento, mandado à Bahia na embarcação Mercúrio, onde permaneceu encarcerado, mesmo declarada a anistia em 1821. Essa lhe foi negada sob acusação de assassínio do brigadeiro Manoel Barbosa. Apelou, portanto para o governo em Lisboa, no intuito de perdoá-lo, o que ocorreu posteriormente. Ainda participará de outros momentos políticos, compondo a Junta Provisória em Pernambuco, por volta de 1822.

José Martiniano de Alencar: Nascido no Crato estudava no Seminário de Olinda quando estourou o movimento republicano em 1817. Em seguida, partiu ao Ceará no intuito de aglutinar pessoas dispostas à referida causa e declarar independência diante da Monarquia. No entanto, com a retenção do movimento, foi preso e após soltura, envolveu-se com políticas de outras localidades, inclusive partindo para Portugal, onde foi deputado. Depois emigrou para Londres em 1823.

José Peregrino Xavier de Carvalho: Nascido na Paraíba teve contribuição no movimento separatista desse local. Com a sua prisão, foi mandado ao Recife, acusado de líder dos republicanos e enforcado no Campo do Erário em 21 de agosto de 1817. Suas mãos e cabeças, as quais enviaram à Paraíba. O restante do corpo foi arrastado por cavalo até o cemitério da Igreja do Santíssimo Sacramento de Santo Antonio no Recife.

Manoel Clemente Cavalcanti: Residente em Itabaiana foi crucial no apoio ao movimento separatista pernambucano, principalmente em sua disseminação na Paraíba, no dia 14 de março de 1817. Participou da batalha da Pindoba em 15 de maio. Foi preso e mandado para a Bahia, julgado e encarcerado até março de 1821. Uniu-se aos pernambucanos contra o governador Luiz do Rego Barreto em Goiana. Posteriormente, estabeleceu relações com o Imperador D. Pedro I, sendo nomeado conselheiro no Rio de Janeiro em 1822.

Manoel Corrêa d’Araújo: Recifense de família opulenta era coronel, cujos soldados defendiam o Edifício do Erário no dia 6 de março de 1817 e se uniram aos demais separatistas no movimento republicano. Foi representante da agricultura no Governo Provisório, mas durante o conflito capitulou, unindo-se ao exército realista do capitão-mor de Santo Antão.

Manoel de Souza Teixeira: Nascido no final do século XVIII, no seio de uma família abastada do Recife seguiu carreira militar, chegando até tenente-coronel da Guarda Nacional em 1843. Aproximou-se das idéias separatistas associadas a Domingos José Martins e João Ribeiro. No dia 6 de março de 1817 foi preso e enviado ao Forte das Cinco Pontas. Com a eclosão do movimento republicano, Manoel Teixeira foi solto e em seguida colaborou com a insurreição. Contudo, após a derrota da república dos pernambucanos, foi preso novamente e mandado para a Bahia a bordo do navio carrasco. Após julgamento, foi condenado ao degredo na costa da África. Só retornou ao Recife em 1821, após D. João VI conceder-lhe anistia. No entanto, a partir da década de 1840, aproximou-se da monarquia, sendo presidente e vice-presidente da província de Pernambuco e alcançando o título de Barão de Capibaribe.



Miguel Joaquim d’Almeida Castro: Nascido no Rio Grande do Norte veio para o Recife aos 16 anos de idade. Estudou no instituto de Nossa Senhora do Carmo, partindo depois para Lisboa. Conseguiu o apreço de pessoas feito José Joaquim de Azeredo Coutinho. Retornando ao Recife, ganhou a alcunha de Miguelinho. Participou do cerco ao Forte do Brum, no dia 6 de março de 1817. Já no dia seguinte, foi nomeado secretário do Governo Provisório no Edifício Erário (Campo da Honra). Desempenhou importantes funções no movimento separatista. Com a capitulação, foi Miguelinho deslocado à Bahia no navio Carrasco. Sob julgamento foi sentenciado à execução por arcabuzes no Campo da Pólvora em 12 de junho de 1817.

Pedro da Silva Pedroso: Nasceu no Recife, no final do século XVIII e entrou no Regimento de Artilharia dessa cidade como soldado, galgando até o posto de capitão em 1816. No dia 6 de março de 1817, foi responsável da morte do tenente-coronel Alexandre Thomaz, ajudante de ordens do capitão-general Caetano Pinto, a favor do regime monárquico. Tomando partido da república, Pedroso ocupou o edifício do Erário e deslocou-se para o cerco no Forte do Brum. Participou também da soltura do Domingos José Martins. Diante do Governo Provisório, foi promovido a coronel da república. No entanto, com a derrota dos separatistas, foi enviado à Bahia e encarcerado até 1821, quando recebeu a condenação para o exílio na Ásia. Chegou até a Prisão do Castelo em Portugal. Contudo, obteve a clemência e foi autorizado a retornar para o Brasil. Mais uma vez, partícipe de novas tentativas republicanas, ocupou o cargo de chefe das armas em Pernambuco. No entanto, divergências internas fragmentaram o movimento, resultando em sua impossibilidade de pôr adiante um modelo republicano. Na volta ao Brasil teve Pedro sua patente rebaixada, mas conseguiu retomar os postos gradativamente, falecendo coronel no Rio de Janeiro.



Fac-símiles das assinaturas de alguns republicanos de 1817




O EDIFÍCIO DO ERÁRIO


Situado no Campo da Honra (atual Praça da República), sediou a eleição do Governo provisório, composto de Manoel Correia de Araújo (representante da agricultura); Domingos José Martins (comércio); padre João Ribeiro, (clero); José Luís de Mendonça, (magistrados); Domingos Teotônio Jorge, (Forças Armadas).
Os 17 componentes; em maioria militares, que legitimaram o governo de 1817, através da eleição, segundo Dias Martins (1853, p. 49) foram:

- Antonio Joaquim Ferreira de Sampaio – Tesoureiro do Erário;
- Felipe Nery Ferreira – negociante;
- Francisco de Brito Bezerra Cavalcante de Albuquerque – Procurador da Coroa;
- Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque – capitão-mor;
- Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque Junior – tenente;
- João d’Albuquerque Maranhão;
- João Marinho Falcão;
- Joaquim da Annunciação Sequeira Varejão – capitão;
- Joaquim José Vaz Salgado;
- Joaquim Ramos d’Almeida – major;
- José Ignácio Ribeiro de Abreu e Lima – padre;
- José Maria de Vasconcellos Bourbon;
- José Xavier de Mendonça – tenente-coronel;
- Luiz Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque – coronel;
- Maximiniano Francisco Duarte – contador;
- Thomaz Ferreira Villa-nova – major;
- Thomaz José Alves de Siqueira;



A BANDEIRA

Teve origem através do Governo Provisório do movimento de 1817 em Pernambuco. Foi criada por Antonio Álvares, um pintor do Rio de Janeiro residente no Recife. A confecção realizada pelo alfaiate José Barbosa e seu irmão Francisco Dornellas Pessoa. Sua composição, segundo Galvão (1810, p. 69) incorpora símbolos pertinentes a ideais políticos. O sol significa a República e a liberdade. (Encontramos também esse astro em outras bandeiras de países que declararam independência, como Uruguai e Argentina). As três estrelas do alto remetem às capitanias insurgentes: Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Já o arco íris, “(...) a concordia offerecida às gentes que quizerem unir seus destinos aos dos pernambucanos (...)” (PERNAMBUCO, 1917, apud REVISTA, 1917, p. 170). A cruz estava relacionada ao primeiro nome do Brasil, ou seja, Terra de Santa Cruz.
No dia 21 de março de 1817, no Campo da Honra (Praça da República), representantes do movimento separatista organizaram uma cerimônia de adesão à bandeira com tropas e fanfarras desfilando naquele local. O deão Bernardo Luiz Ferreira Portugal abençoou as flâmulas, que foram entregues aos regimentos e membros do governo provisório. Terminado movimento, caiu a bandeira em desuso, substituída pela de 1824 na Confederação do Equador. No entanto, essa também foi proibida, após a retomada da monarquia em Pernambuco.
Somente no decreto n. 459, em 23 de fevereiro de 1917 foi oficializada a bandeira do estado de Pernambuco alusiva ao centenário da Revolução de 1817. Alguns detalhes foram alterados, dentre eles a permanência de uma estrela no lugar de três, simbolizando unicamente Pernambuco. O arco íris, a princípio contendo tonalidades como o lilás e o laranja, foi suprimido para três cores; o vermelho, o amarelo e o verde.



POESIAS DE 1817
[1]

SONETO

Sagrada Emansão da Divindade,
D’aqui do cadafalso Te saudo;
Nem com tormentos, nem com reveses mudo:
Fui teo votario, e sou, oh Liberdade!

Pode a vida feroz Brutalidade
Arrancar-me em tormento o mais agudo;
Mas zomba do vil Despota sanhudo
Da minha Alma a nativa Dignidade.

Livre nasci, vivi, e livre espero
Encerrar-me na fria sepultura,
Da paz solemne azilo, azilo austero.

Nem da morte a medonha catadura
Infundir pode horror a hum Peito fero
Que aos fracos tam somente a Morte he dura.

(Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, nos cárceres da Bahia
[2])


SONETO

Meus ternos pensamentos, que sagrados
Me fostes quazi à par da Liberdade;
Em vós não tem poder a Iniqüidade;
À esposa voai, narrai meos fados.

Dizei-lhe, que nos trances apertados,
Ao passar d’esta vida à Eternidade,
Ela d’alma reinava na ametade,
E com a Pátria partia-lhe os cuidados.

A Patria foi o meo Nunem primeiro,
A Espôza depois o mais querido
Objecto do disvelo verdadeiro.

E na morte entre ambas repartindo
Será de huma o suspiro derradeiro,
O da outra ha de ser final gemido.

(Domingos José Martins, nos cárceres da Bahia, em 1817
[3]).


Sentença da Commissão Militar na Bahia contra os Réos n’ella declarados

Vendo-se n’esta cidade da Bahia o processo verbal dos réos Domingos Jose Martins, Jose Luiz de Mendonça, Padre Miguel Joaquim d’Almeida, Manoel José Pereira Caldas, e padre Bernardo Luiz Ferreira Portugal: auto do corpo de delicto; testemunhas sobre elle perguntadas; e interrogatórios feitos aos mesmos réos: decidio-se uniformemente, e por todos os votos, que as sobreditas culpas se achavão plenamente provadas, e os réos d’ellas incursos nos §§ 5.º e 8.º do Liv. 5.º das Ordenações do Reino ; e mandão, que se executem nos sobreditos réos as penas do §9.º da mesma Ordenação, que diz e em todos estes cazos, e em cada um d’elles, he propriamente commettido o crime de lesa magestade, e havido por trahidor o que o commetter; e sendo o commettedor convencido por cada um d’elles, será condemnado, que morra morte natural cruelmente; e todos os seos bens que tiver ao tempo da condemnação, seráõ confiscados para a corôa do reino, posto que tenha filhos, ou outros alguns descendentes, havidos antes, ou depois de haver commettido o tal maleficio Entendem, com tudo, os ministros da commissão militar, que, por perfeita segurança de suas consciências, devem fazer uso da permissão concedida a taes tribunaes, recommendando – Manoel Jose Pereira Caldas e Bernardo Luiz Ferreira Portugal – á illimitada beneficencia de S. M. El Rei nosso Senhor, em attenção á decrepitude do primeiro, e circumstancia de ser elle natural da Provincia do Minho, e por isso muito provavel a violencia, que o forçára a ceder ao partido pernambucano, partido, que pelos autos consta, ser o unico forte, e supremo, e a quem convinha para seos damnados fins associas nos dias últimos de Março individuos da Europa. Em igual attenção a coartada, que o segundo offerece quando assegura, ter feito, ainda no calor da revolução, seo testamento, em que se declara fiel vassalo d’El Rei nosso Senhor, e a que ajunctava documentos, que talvez minorem o seo crime, e lhe sejão baldados pela brevidade da sentença. Bahia, em commissão militar 11 de junho de 1817.

Henrique de Mello Coutinho de Vilhena, Relator.
Manoel Gonçalves da Cunha, Major.
Jose Antonio de Mattos, Tenente-Coronel.
Manoel Fernandes da Silva, Tenente-Coronel.
Joaquim Jose de Souza Portugal, Coronel.
Antonio Fructuoso de Menezes Doria, Coronel.
Felisberto Caldeira Brant Pontes, Brigadeiro.
Manoel Joaquim de Mattos, Brigadeiro de Legião.
D. Marcos, Conde dos Arcos, General.



BIBLIOGRAFIA

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Annais Pernambucanos: 1795 - 1817. V. viii. Recife: Arquivo Público Estadual, 1958. p. 505 – 506.

_____. Diccionario biographico de pernambucanos célebres. Recife: Typographia Universal, 1882. 804p.

GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos. Diccionario chorographico, historico e estatistico de Pernambuco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1910.

MARTINS, Dias. Os martires pernambucanos: victimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas em 1710 e 1817. [Recife]: Typ. de F. C. de Lemos e Silva, 1853.

PERNAMBUCO (Estado). Decreto n. 459, 23 de fevereiro de 1917. Adoptando como bandeira de Pernambuco dos revolucionarios republicanos de 1817. REVISTA do Instituto Archeologico Geographico de Pernambuco, Recife, v.19, n.95 – 98. 1918, p – 168 – 170.

SANTOS, André Maranhão. Atividade tipográfica em Pernambuco e a construção da Biblioteca Pública no século XIX. Cadernos Olinda. Ano ii, n. 03, dezembro de 2006.

SONETO. [Recife]: Na Typ. de Cav. & C.a., [1817].

SONETO. [Recife]: Na Typ. de Cav. & C.a., [1817].


[1] Textos extraídos das Peças Oficiais relativas às revoluções de Pernambuco, 1817 – 1824, pertencentes à Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco.
[2] SONETO. [Recife]: Na Typ. de Cav. & C.a., [1817].
[3] SONETO. [Recife]: Na Typ. de Cav. & C.a., [1817].

ILUSTRAÇÕES


















FAC - SÍMILES DAS ASSINATURAS DE ALGUNS REPUBLICANOS













BANDEIRA DA REVOLUÇÃO DE 1817













BANDEIRA DO ESTADO DE PERNAMBUCO DESDE 1917

















QUARTEL DE ARTILHARIA ONDE ESTOUROU O MOVIMENTO DE 1817








Wednesday, November 14, 2007

A Arte Abstrata na Obra de Tomie Ohtake


Tomie Ohtake pode ser considerada como uma das maiores artistas plásticas do Brasil. Não somente pela inovação, mas pela versatilidade de suas influências e pela intensidade de sua obra, estendida por mais de 50 anos. Suas fases também marcam novidades de matérias e de perspectivas, o que lhe dá uma pluralidade imprescindível para qualquer interessado em arte abstracionista. Ela iniciou sua carreira como pintora, entre os 39 e 40 anos de idade. Se comparada a certos artistas plásticos, esse começo pode até ser tardio. Mesmo assim, suas proposições estéticas e suas qualidades de pintura não foram comprometidas, pois deram às fases de sua obra variações de cores, de materiais e até de temas.
Ohtake nasceu em 1913, em Kyoto, no Japão e em 1936 veio para o Brasil, radicando-se e naturalizando-se neste país. Mas, sua infância vivida no Japão foi imprescindível como formadora de poética, o que resultou na mescla de influências, tanto do Oriente, como do Ocidente. Segundo alguns críticos, como Paulo Herkenhoff, Frederico Morais e Miguel Chaia, não será a forma japonista, tão presente no estilo de Van Gogh, que fluirá nas composições de Ohtake, mas a filosofia zen que procura sempre o equilíbrio de sentidos, assim como a poética dos haicais, que em poucas palavras e formas compactas exprimem e ou sugerem significados vários. Essa intensidade ocorre ainda maior, quando a pintora passa do Figurativismo ao Abstracionismo na década de 50.
O grande trunfo da autora, como técnica é a pincelada, pois com ela percebemos sua intencionalidade mais objetiva e disciplinada, que ao final da pintura, traz um grande convite à nossa subjetividade. É a fusão do pincel, com as cores e as formas, que transforma a tela num grande universo cósmico, visceral e até embrionário. O lirismo constituído pelo cromatismo de Tomie Ohtake está presente, mas sua construção dá-se de maneira regrada e cautelosa com os produtos da intencionalidade. Eis aí uma notabilidade de sua idéia. “Eu nunca pintei com o emocional. Sempre pintei mais friamente. É sempre colocando camada, camada, camada. Colocando muitas cores, camada, camada, até chegar onde eu quero” (OHTAKE, 2001, p 62).
A pincelada de Ohtake, não só representa uma característica sua, mas uma inovação no estilo de pintura ocidental. O compasso mais pausado e intervalado contrasta, por exemplo, com a maneira veloz na composição presente em movimentos como expressionismo, por exemplo. E para construir suas pintura, Ohtake altera a materialidade de suas telas, raspando parte dessas e procurando mais uma coloração além da dependência da tinta[1]. Na década de 60, alguns de seus quadros resultam na adição de camadas sobre a figura, que propõem o engelhar pictórico e uma nova forma de solidez.
Em sua influência abstracionista, Tomie foge da materialidade e da representação de objetos convencionais. Sua pintura é mais sugestiva, incita a construção de arquétipos[2], o que alimenta a subjetividade através do inconsciente. Não há a racionalidade das formas, nem a mecanização estética. Contrariamente, a introspecção e a soltura, são suas características. A confluência de perspectivas, onde tonalidades diferentes confundem os planos e fundos das telas são evidentes, principalmente nos anos 90. Seu cromatismo abarca cores foscas e vivas. Mas há quase sempre a variação de tons numa mesma composição. Desde os pretos mais fechados, a cinzas, azuis, ocres, vermelhos e brancos. E o degradê se presencia, não numa ordem de clareamento ou escurecimento óbvio, mas na troca de intensidades esparsas nas telas da artista, agregando inclusive manchas como parte intencional.
Na década de 70, Tomie inicia as composições abstratas entre curvas, elipses, círculos, cápsulas. É nessa fase que Frederico Morais sugere uma conexão com o erótico. Pelas formas criadas. Não um erótico concreto, mas a sensação erótica que é promovida pela complexidade de pintura e a ligação de sua forma, com o universo fisiológico e reprodutivo, uterino. “Entre as formas criadas pela artista, nas diversas etapas de sua obra, algumas podem ser vistas como eventualmente eróticas, permitindo analogias fálicas, vaginais, uterinas: fendas, furnas, grutas, pregas, púbis, ancas, línguas, formas rombudas, que buscam se aproximar do clitóris ou da glote, mas, ainda sim, mais alusivas que intencionalmente figuradas” (MORAIS, Apud: OHTAKE. 2001, p 143).
Outros críticos como Miguel Chaia associam a obra de Tomie Ohtake a representações cósmicas, principalmente a partir da década de 90. Surge uma ligação com o Universo, desde o macro ao microcosmo. Isso seria “alimentado” por Tomie valorizar a representação do vazio em sua obra. “Em Tomie, o vazio não representado e valorizado, por si só, enquanto expressão angustiante que traduz uma impossível conquista, mas sim como convivência de opostos, ordenando assim um dinâmico espaço pictórico” (CHAIA, Apud: OHTAKE, 2001. p 218). Similitudes ocorrem entre algumas pinturas e elementos do espaço sideral. Planetas, gases, astros; todos encontram algum entrelaçamento com a representação de Ohtake. Não somente o tempo é algo que não se exaure nas telas da artista. A sua visão de tempo é praticamente influenciada por nuances de Albert Einstein, pois Tomie já pintou simultaneamente duas telas, o que por sua vez ocasionou uma troca de atmosfera entre as duas. Além disso, o indivíduo se tornar sujeito diante das composições de Tomie Ohtake, pois sua concepção pictórica é um convite à reflexão do ser humano, algumas vezes até atraindo a idéia de inferioridade – não no sentido pejorativo – mas em conceber nossas origens, assim como nossas fragilidades.



BIBLIOGRAFIA



CHAIA, Miguel. A Dimensão Cósmica na Arte de Tomie Ohtake In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.

HERKENHOFF, Paulo. Tomie Ohtake. In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.

JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente. Tradução: Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes. 2005.

MORAIS, Frederico. O Edifício de Formas. In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.
[1] “Em algumas pinturas dos anos 60, Ohtake raspa a camada branca monocromática que cobre a tela, para recuperar em sombras, a base de cor original. É necessário desconstruir o branco, abismovisual da luz absoluta. É como se, atingindo o excesso de luz, fosse urgente recuperar a presença da sombra para a definição do relevo do mundo” (HERKENHOFF, Apud: OTHAKE, 2001, p 63).
[2] A definição de arquétipo é intimamente remetida à Psicanálise e à Psicologia. Jung definiu de maneira clara à significação arquetípica e sua conexão com a psique: “(...) trata-se da camada mais profunda do inconsciente, onde jazem adormecidas as imagens humanas universais e originárias” (JUNG, 2005, p 57).

Sunday, September 09, 2007

Shakespeare e o Teatro



William Shakespeare, nascido em Stratford-on-Avon, foi um inovador, não apenas na Literatura, mas no Teatro e nas Artes como fruto espetacular. Podemos considerar sua obra como vasta, principalmente se compararmos a outros dramaturgos.
Shakespeare, notavelmente, utiliza elementos do imaginário popular, tanto de sua época como de séculos atrás. Em suas obras são constatadas tais mesclas, no entanto com um tom de irreverência e de descontinuidade sentimental. A Tempestade foi uma dentre as últimas obras do escritor e, como era de praxe em sua textualidade, há influências de outros dramas predecessores, inclusive de autores não ingleses. Em O Mercador de Veneza, por exemplo, constatamos uma similitude com dois textos anteriores, principalmente no foco do enredo. “Todos os comentadores admitem como as duas fontes principais de onde saiu ‘O Mercador de Veneza’, em primeiro lugar, Il Pecorone, de ser Giovanni Fiorentino, coleção de contos publicada em 1558 (...). A segunda fonte é a 66ª história de Gesta Romanorum, conjunto de contos e lendas latinas traduzidas para o inglês em 1577”. (MEDEIROS, Apud: SHAKESPEARE, 2006. p 13). Alguns mitos populares de outros países, também ganham conexão com outros dramas de Shakespeare. Hamlet é um caso que descende da mitologia escandinava. Saxo Grammaticus, um autor dinamarquês o trouxe para sua obra, História Dânica e François Belleforest, também menciona a Hamlet em sua publicação intitulada Histoires Tragiques.
Nas influências coligadas ao imaginário popular, Shakespeare encontra guarida para sua escrita. É notável a influência de elementos do teatro grego, a começar pelo trabalho estético do drama. Porém, na composição artística do inglês, que posteriormente ganhará o nome de Teatro Elisabetano[1], há uma reelaboração contextual que também carrega influências da commedia dell’arte, uma forma teatral proveniente do Período Renascentista. O protagonista, que advém das nuances greco-teatrais, continua na obra de Shakespeare, mas dessa vez, ainda mais enfático e centralizador. Ênio Carvalho menciona como o teatro da Península Itálica corroborou e precedeu tal ênfase. “Angelo Beolco foi o primeiro a transformar-se de ator em autor, sendo considerado o pai do profissionalismo italiano e, até mesmo, europeu, abrindo caminho para Molière e Shakespeare. Ele, efetivamente, inaugurou uma nova época, em que os autores começaram a ficar conhecidos. Surgiu, a partir, daí, o culto da individualidade, uma das marcas do Renascimento”. (CARVALHO, 1989, p 39)
Há um contraste com a forma grega quando Shakespeare trabalha a questão do destino. Os gregos concebiam a sina do protagonista já traçada a partir da decisão de suas divindades, ou seja, os personagens eram intimamente dependentes de uma “vontade divina”, que não ocorre em Shakespeare, pois tanto os protagonistas como os antagonistas, coadjuvantes e figurantes, são mais livres em seus arbítrios, e especificam a autonomia do homem como parâmetro no enredo. O homem já é mais o dono de si, nas obras de Shakespeare. Outra característica latente no autor é a diversidade mitológica e ou fantasiosa. Os gregos focaram o mundo de suas alegorias como exclusivas de seus contextos. Zeus e Hermes aparecem, por exemplo, em Prometeu Acorrentado, assim como uma esfinge está presente em Édipo Rei. Mas em Shakespeare, existe uma miscelânea de elementos além dos gregos. Os romanos, os vikings e os da cultura pagã norte-européia, notadamente medieval são inseridos, juntos à conciliação de elementos naturais já divinizados. Em A Tempestade, Ariel simboliza o espírito do ar, que surpreendentemente se encontra à mercê da vontade humana, por parte de Próspero, o duque de Milão, ou seja, há agora a possibilidade humana do controlar a natureza e os sentimentos. O autor também amplia o sentido figurado, quando estende as representações bestiais a coisas que extrapolam os sentidos. Se os gregos construíam representações para Fobos (Medo) e Deimos (Pânico), Shakespeare, por sua vez, transcende a metáfora grega até raízes gestuais. Um fragmento da fala de Hamlet é um bom exemplo: “O costume, esse monstro, que devora todo o sentimento embora seja um demônio em matéria de hábito, é um anjo, contudo, quando para executar belas e nobres ações, também nos concede um hábito ou uma libré que são vestidas com facilidades”. (SHAKESPEARE, 2004, p 76). Eis uma das genialidades de dramaturgo inglês; a dualidade na mesma origem. O autor entrelaça neste exemplo uma perspectiva incerta parecida com a de Camões em seus sonetos. A diferença é que Shakespeare demonstra mais soltura para a ação do sentimento e dos gestos, mediante o interesse de quem o exerça.
Outro aspecto primoroso no universo de William Shakespeare é a indefinição da catarse, a começar pela variedade de fases do autor. Romeu e Julieta termina de maneira completamente diferente se comparado à Noite de Reis. Se uma tem um contexto trágico a outra é inversamente cômica. A imprevisibilidade de sua escrita é saliente, pois o autor teve uniu elementos semelhantes em duas ou mais obras, o que não deixou seus textos redundantes, devido à variação no andamento de suas peças. Tanto Noite de Reis como A Tempestade se iniciam com um naufrágio, mas não transcorrem igualmente. A primeira toma uma continuidade enclausurada em cenários com castelos e salas mais escuras; já a segunda, traz para uma ilha, quase inabitada a encenação. Mas a quebra e a sinuosidade da catarse continua, um teste ao espectador[2], pois muitos esperam por um final feliz em Romeu e Julieta e não o têm, mas se deleitam com o romance no meio da obra. Outros se alimentam do inicial espírito de vingança de Próspero contra seu irmão que o trai em A Tempestade, mas que acaba perdoado. Ou quem não sentiu certa agonia com a mesquinhez de Shylock, o Judeu de O Mercador de Veneza, quiçá com a dor de Hamlet ao ver sua mãe, recém viúva, casar com seu tio?
Os experimentos de Shakespeare tanto deram, como dão respaldo para gerações teatrais. Assim, constituem uma forte escola de formação, leitura e, sobretudo, de alimento aos sentimentos humanos.


Referências

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores...

CARVALHO, Enio. História e Formação do Ator. São Paulo, Ática, 1989.

SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Tradução: Carlos Alberto Nunes. São Paulo, Martin Claret, 2006. 115 p.

_____. Hamlet. Tradução: Pedro Nassetti. São Paulo, Martin Claret, 2004. 132 p

_____. O Mercador de Veneza. Tradução: F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros, Oscar Mendes. São Paulo, Martin Claret, 2006. 129 p.

Notas

[1] O Teatro Elisabetano foi dependente da moral prescrita e ordenada de Elizabeth I; daí o seu nome. Algumas restrições, como a proibição de mulheres no palco foram características desse período teatral. O que não impediu vários êxitos de autores como William Shakespeare no Global Theatre.

[2] O espectador sempre foi e como ainda é, elemento indispensável à constituição do teatro. E são as sensações de quem assiste os dramas, tragédias e comédias, que variam, levando o próprio ser humano à reflexão de si próprio. “Os humanos são capazes de ser ver no ato de ver, capazes de pensar suas emoções e de se emocionar com seus pensamentos. Podem se ver aqui e se imaginar adiante, podem se ver como são agora e se imaginar como serão amanhã” (BOAL, p 14)